Entrevista: Justine Never Knew The Rules

A Justine Never Knew The Rules vem de Sorocaba-SP e lançou seu primeiro EP auto-intitulado faz menos de um mês, gravado de forma DIY, o EP tem três músicas de muito fuzz, delay, melodias soterradas pelo barulho e vozes hipnotizantes. Maurício Barros, Bruno Fontes e Marcel Marques se intercalam entre guitarra, baixo e bateria e mostram que My Blood Valentine e o Tame Impala tem sim muita coisa em comum além do primeiro nome de seus vocalistas.

10608894_672098332877027_1239090757_nFoto por Toró Audiovisual

Fortemente recomendado aos fãs de Spacemem 3, WRY e as bandas citadas acima.

Bati um papo com eles por e-mail pra saber mais das suas influências, da gravação do EP e o que mais veio na cabeça.

Antes, dê o play.

Lowzine: Quem são os integrantes e como nasceu a Justine Never Knew The Rules?

Maurício Barros: Os integrantes são Bruno Fontes, Marcel Marques e Maurício Barros. O Bruno e o Marcel já se conheciam e tinham tocados juntos. Eu os conheci no início de 2013. Como gostavamos das mesmas bandas e tinhamos alguns amigos em comum, sempre ouviamos falar uns dos outros porém nunca tinhamos conversado pessoalmente. Quando isso de fato aconteceu, em uma casa noturna de Sorocaba, logo marcamos um ensaio e não paramos mais. No início, queriamos colocar um baterista para completar a banda. Por quase um ano tentamos com várias pessoas mas nunca dava certo. Até que um dia resolvemos fazer tudo apenas nós três. Recomeçamos praticamente do zero. Reformulamos o formato da banda, abandonamos a maioria das músicas que tocavamos e fizemos novas. Tudo isso nos uniu muito e criou uma grande amizade entre a gente. Isso foi fundamental para a banda dar certo e gravarmos nosso primeiro EP.

L- O que compõe o som de vocês?

Bruno Fontes: No que diz respeito a criação musical e influências, o psicodelismo dos anos 70 e o noise dos anos 90. Na parte instrumental, usamos um set de bateria reduzido (caixa, surdo e prato de condução), baixo, guitarra e pelo menos 30 pedais para criar o “wall of sound” que gostamos.
Nós revezamos os instrumentos de acordo com a música e não seguimos a risca o formato de banda de rock tradicional: em algumas músicas não usamos baixo para usar duas guitarras ou deixamos de lado a bateria.10592475_672098319543695_1357950668_n

Foto por Marceli Marques

L- Quais são as principais influências?

Marcel Marques: Gostamos de muitas bandas. Mas se fosse para listar as principais seriam The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, The Beatles, Velvet Underground, Slowdive, Ride e Tame Impala.

L- Poderiam fazer um faixa-a-faixa das 3 músicas do EP. Comentários rápidos com a intenção de vocês em cada uma delas.

Bruno Fontes: Vamos lá. A primeira música do EP, chamada “Isn’t So Hard”, foi a última que compomos das três. De uns meses pra cá andamos ouvindo bastante bandas como Temples e Tame Impala, que tem uma forte influência psicodélica, e isso nos inspirou a fazer algo nessa linha.

Maurício Barros: Durantes a mixagem, resolvemos dar uma pirada a mais nela. Na parte final, o Bruno e eu declamamos dois poemas simultaneamente e em velocidades diferentes. A leitura mais rápida é um trecho do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa e a mais lenta é “Ruiva”, poema de Pedro Alberto, um poeta sorocabano. Essa combinação deu um efeito bem legal na música como um todo. Se você prestar atenção da pra ouvir a gente combinando tudo isso antes de começar a ler, dando risada da situação. Foi bem divertido todo esse experimentalismo praticamente improvisado.

Bruno Fontes: A segunda, “Red Lipstick”, nos lembra bastante o momento de consolidação da banda, logo após decidirmos adotar o formato que temos. Começamos a nos entender melhor e usufruir mais de formatos inusitados, como essa que é tocada com duas guitarras e nossa bateria reduzida.

Maurício Barros: A ideia básica dela foi fazer o máximo de barulho com a guitarra contrastando com a voz, quase sussurada. Esse antagonismo somado a repetição das notas (usamos apenas duas notas a música inteira!) e o riff hipnótico que o Marcel faz, cria uma atmosfera muito marcante e sempre causa impacto nas pessoas durante nossos shows.

Bruno Fontes: A “When You Least Expect it” foi nossa primeira demo, criada ainda na época de transições da banda. Gravamos ela em 2013 e agora em meio a produção do EP, resolvemos reformula-la dando mais enfase na melodia e experiementando mais efeitos de ambiente.

Maurício Barros: Queriamos fazer uma música que parecesse algo que o Kevin Shields esqueceu de colocar na versão final do “Loveless” do My Bloody Valentine.

L- Como foi a gravação do EP?

Bruno Fontes: Foi insano! O Marcel tinha todo o equipamento necessário para fazer uma gravação, então resolvemos fazer algo “do it yourself” e passar pela experiência de fazer tudo (gravação, mixagem e arte) nós mesmos. Os lugares para realizar as gravações foram desde quarto de integrantes até casa de amigos.
Levou mais tempo do que esperávamos por ser algo completamente novo para nós. Muita vezes, o azar parecia estar ao nosso lado. A cada dia que passava um problema surgia. Queimamos pelo menos 5 amplificadores (talvez pelo volume elevado que usamos para gravar), atropelamos o notebook do Marcel que tinha toda as gravações finais e, um dia, um fato praticamente inacreditável aconteceu: nosso gato de estimação subiu no notebook e deletou as faixas gravadas no computador.
Na parte artística, contamos com o apoio da Suelen Roman Duarte, minha namorada, que fez uma bela arte psicodélica como capa para o nosso EP.
Não foi fácil mas nos divertimos e aprendemos muito. Percebemos que é possível fazer algo legal mesmo com todas limitações que uma banda encontra no início. Todas as bandas deveriam passar por isso, é uma experiência que vale muito a pena.

L- o EP saiu em cassete e cd, não é? Como eles podem ser adquiridos?

Maurício Barros: Saíram em CD, K7 e em nossos canais na internet (Youtube, Soundcloud, Bandcamp e TNB). Por enquanto, todo material pode ser adquirido nos stands que montamos em nossos shows.

10494665_664271260326401_3738401742767913594_nFoto do facebook da banda

L- O som que vocês escolheram fazer tem um bom número de fãs no Brasil, porém está muito longe de ser algo popular. Vocês acreditam que podem ser ouvidos para além do nicho shoegaze/alt-rock? Como tem sido a receptividade após o lançamento?

Maurício Barros: O psicodelismo e o shoegaze resurgiram com força total na cena musical mundial faz uns anos. Bandas que se consolidaram como Tame Impala e Horrors, a volta do My Bloody Valentine e Slowdive, sem falar de bandas novas como Cheatahs, ressucitaram o estilo que ficou quase a sombra do Britpop e do Grunge nos anos 90. Tudo isso ajudou o EP a ter uma boa recepção. Mas em relação a ser escutado ou não, achamos que hoje em dia isso está mais relacionado a qualidade e mentalidade da banda, do que ela quer e faz para divulgar o seu trabalho e aproximar isso das pessoas.

L- E os shows? Tem datas já programadas para lançar o EP em mais cidades?
Maurício Barros: Reservamos esse segundo semestre para a divulgação do EP. Estamos fechando shows em Bauru, Campinas e São Paulo. Porém, nossa agenda ainda esta aberta. Quem quiser entrar em contato para shows, pode enviar um email para contato.jnktr@gmail.com

L- Como é a “cena” em Sorocaba em termos de lugares pra tocar, bandas e público?

Maurício Barros: A cena sorocabana é conhecida no Brasil inteiro. De lá sairam muitas bandas independentes importantes como Vzyadoq Moe, Wry, The Biggs, Pugna, Volpina,The Name e INI. E ainda continua sendo um berço de criatividade e bandas novas. As bandas no geral se ajudam e temos o apoio de muita gente que passou por isso e ainda colabora de forma ativa. O Rasgada Coletiva é um bom exemplo disso, vai muito além da música apoiando também outras vertentes culturais como cinema, poesia, pintura e teatro. Temos duas casas noturnas muito conhecidas que abrem espaço para as bandas independentes, o Asteroid e o Sound.

L – E no Brasil, como vêem o atual estado da música independente por aqui?

Maurício Barros: No nosso ponto de vista está melhor que nunca. Muita gente fala que estamos vivendo uma “ressaca” ou que as bandas estão preguiçosas e coisas do tipo, mas isso é uma visão completamente parcial das coisas. Prova disso é o sucessso do Boogarins e do Single Parents. As bandas estão indo muito além de gravar uma demo e sair por aí fazendo turnês. Estão se organizando, ajudando e exportando música para o mundo. O trabalho que o Fernando Dotta e o Rafael Farah estão fazendo no Balaclava Records é um exemplo disso e é digno de respeito. Não me lembro de ninguém fazer algo parecido antes. Não estou querendo dizer que ninguém tenha tentado ou feito isso anteriormente, mas é uma completa falta de sensibilidade dizer que a cena está fraca. A cena independente evoluiu de certa forma que o sucesso hoje não está necessariamente ligado a estar no mainstream.

L – O Wry é uma influencia direta no som e na postura da Justine? Pensam em se aventurar na gringa como eles?

Bruno Fontes: Com certeza é uma grande influência para todos nós, desde a adolescência. É uma das bandas em que nos espelhamos quando começamos, por serem da nossa cidade e partilharem das mesmas influências que a gente. O nosso nome, inclusive, foi uma idéia do Mario Bross (vocalista do Wry).
Sobre a aventura na gringa, se surgir a oportunidade, com certeza iremos.

L- Recomendem alguns sons que andam ouvindo.

Bruno/Marcel/Maurício: The Horrors, Spacemen 3, Tame Impala, Toy, Boogarins, Yuck, Brincando de Deus e DIIV.

L- Pra terminar, quais os planos a partir de agora?

Maurício Barros: Vamos fazer alguns shows para divulgar o EP e voltar para as gravações. Pretendemos lançar um material de inéditas no máximo até o primeiro bimestre do ano que vem.

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